
de que temos medo?
Porque guardar algo que nos perturba?
"Claro que essas pessoas não me conhecem, mas eu sim. Conheço-as intimamente; quase lhes decorei as fisionomias - e regozijo-me quando estão alegres, angustio-me quando as vejo tristes. (...)" em: Noites Brancas, F. Dostoievski

Prince Rupert's Drops (Lacrymae Batavicae, Rupert's Balls, Lágrimas de Vidro, Larmes de Verre, Tears Glass)...
...é uma espécie de excentricidade no mundo do vidro: criadas derramando uma gota de vidro em fusão - derretido e quente - em agua fria. O vidro arrefecido fica com uma forma "tipo girino" com um bolbo e uma cauda comprida e fina. Da-se um rápido arrefecimento da parte externa do vidro da gota enquanto que o seu interior se mantem relativamente quente. Quando eventualmente o interior arrefece, contrai-se no interior da já sólida camada exterior. Esta contracção provoca grande stress compressivo na superfície enquanto o interior fica sob tensão - uma espécie de vidro temperado. Aliado este stress permanente ás pouco usuais qualidades e características da gota, tais como suportar um golpe de martelo na extremidade bolbosa sem se quebrar, ou desintegra-se completamente numa espécie de explosão em caso de toque - mesmo ligeiro ligeiro - na cauda. Quando isto, a "explosão", ocorre da-se a libertação da quantidade grande de energia potencial armazenada na estrutura da gota, fazendo com que as fracturas se propaguem através do material a alta velocidade - desintegrando-se por completo em pó de vidro.
Reza a lenda, que as gotas foram descobertas supostamente em torno do ano de 1640 pelo Príncipe Rupert do Reno (1619-1682), neto de James I e sobrinho de Charles I de Inglaterra. Diz-se que o rei usaria frequentemente as gotas como uma piada/partida na sua coorte. Dando uma gota a um seu cortesão ou cortesa partindo depois então a cauda causando uma explosão pequena na mão dessa pessoa que se surpreenderia/assustaria...

“(…)Na verdade, são poucos os que sabem da existência de um pequeno cérebro em cada um dos dedos da mão, algures entre a falange, a falanginha e a falangeta. Aquele outro órgão a que chamamos cérebro, esse com que viemos ao mundo, esse que transportamos dentro do crânio e que nos transporta a nós para que o transportemos a ele, nunca conseguiu produzir senão intenções vagas, gerais, difusas, e sobretudo pouco variadas, acerca do que as mãos e os dedos deverão fazer. Por exemplo, se ao cérebro da cabeça lhe ocorre a ideia de uma pintura, ou musica, ou escultura, ou literatura, ou boneco de barro, o que ele faz é manifestar o desejo e ficar à espera, a ver o que acontece. Só porque despachou uma ordem ás mãos e aos dedos, crê, ou finge crer, que isso era tudo quanto se necessita para que o trabalho, após umas quantas operações executadas pelas extremidades dos braços, aparecesse feito. Nunca teve a curiosidade de se perguntar por que razão o resultado final dessa manipulação, sempre complexa até nas suas mais simples expressões, se assemelha tão pouco ao que havia imaginado antes de dar instruções ás mãos. Note-se que, ao nascermos, os dedos ainda não têm cérebros, vão-nos formando pouco a pouco com o passar do tempo e o auxílio do que os olhos vêem. O auxílio dos olhos é importante, tanto quanto o auxílio daquilo que por eles é visto. Por isso o que os dedos sempre souberam fazer de melhor foi precisamente revelar o oculto. O que no cérebro possa ser percebido como conhecimento infuso, mágico ou sobrenatural, seja o que for que signifiquem sobrenatural, mágico e infuso, foram os dedos e os seus pequenos cérebros que lho ensinaram. Para que o cérebro da cabeça soubesse o que era a pedra, foi preciso primeiro que os dedos a tocassem, lhe sentissem a aspereza, o peso e a densidade, foi preciso que se ferissem nela. Só muito tempo depois o cérebro compreendeu que daquele pedaço de rocha se poderia fazer uma coisa a que chamaria faca e uma coisa a que chamaria ídolo. O cérebro da cabeça andou toda a vida atrasado em relação ás mãos, e mesmo nestes tempos, quando nos parece que passou à frente delas, ainda são os dedos que têm de lhe explicar as investigações do tacto, o estremecimento da epiderme ao tocar o barro, a dilaceração aguda do cinzel, a mordedura do acido na chapa, a vibração subtil de uma folha de papel estendida, a orografia das texturas, o entramado das fibras, o abecedário em relevo do mundo. E as cores. Manda a verdade que se diga que o cérebro é muito menos entendido em cores do que crê. É certo que consegue ver mais ou menos claramente visto o que os olhos lhe mostram, mas a s mais das vezes sofre do que poderíamos designar por problemas de orientação sempre que chega a a hora de converter em conhecimento o que viu. Graças à inconsciente segurança com que a duração da vida acabou por dota-lo, pronuncia sem hesitar os nomes das cores a que chama elementares e complementarias, mas imediatamente se perde, perplexo, duvidoso, quando tenta formar palavras que possam servir de rótulos ou dísticos explicativos de algo que toca o inefável, de algo que roça o indizível, aquela cor ainda de todo não nascida que, com o assentimento, a cumplicidade, e não raro a surpresa dos próprios olhos, as mãos e os dedos vão criando e que provavelmente nunca chegará a receber o seu justo nome. Ou talvez já o tenha, mas esse só as mãos o conhecem, porque compuseram a tinta como se estivessem a decompor as partes constituintes de uma nota de música, porque se sujaram na sua cor e guardaram a mancha no interior profundo da derme, porque só com esse saber invisível dos dedos se poderá alguma vez pintar a infinita tela dos sonhos. Fiando de que os olhos julgaram ter visto, o cérebro da cabeça afirma que, segundo a luz e as sombras, o vento e a calma, a humidade e a secura, a praia é branca, ou amarela, ou dourada, ou cinzenta, ou roxa ou qualquer coisa entre isto e aquilo, mas depois vêm os dedos e, com um movimento de recolha, como se estivessem a ceifar uma ceara, levantam do chão todas as cores que há no mundo. O que parecia único era plural, o que é plural sê-lo-á ainda mais. Não é menos verdade, contudo, que na fulguração exaltada de um só tom, ou na sua musical modulação, estão presentes e vivos todos os outros, tanto os das cores que já têm nome como os das que ainda o esperam, do mesmo modo que uma extensão de aparência lisa poderá estar cobrindo, ao mesmo tempo que os manifesta, os rastos de todo o vivido e acontecido na historia do mundo. Toda a arqueologia de materiais é uma arqueologia humana. (…)”
Em: “A Caverna”, José Saramago (paginas:
“Gavetas” Conceitos, (pré)conceitos, classificações, normas, conduta…
Faz sentido que sempre que algo “novo” se nos apresenta tenhamos sempre que o catalogar???!!! É-nos impossível agir de outra forma? É isto algo deplorável? Ou apenas natural – outro conceito de difícil resolução – e até de salutar!?
A ver se me explico: sempre que observamos/conhecemos algo ou alguém novo, tendemos logo a “colar-lhe uma etiqueta” mais ou menos abonatória, mais ou menos volátil… E isto baseados em quê? Na impressão que tal nos cause…
Visto assim parece algo deplorável – preconceituoso – arbitrária, sem base racional! Mas será mesmo assim? Não contam a nossa experiência – e educação – em nada neste “julgar”? E em que ou com que peso?
Após tantas duvidas, ficar-me-ia bem procurar dar resposta – sem bem que sempre de carácter pessoal, ou seja, sempre dependente da(s) minha(s) experiência(s) e (pré)conceito – então cá vai:
Como acima escrevo, julgo que é uma quase impossibilidade humana a fuga a este “engavetamento” e formulações de impressões constantes da nossa parte em relação a tudo e todos que nos rodeiam – independentemente do maior ou menos grau de contacto com esse “outro” – pelo que o que há a fazer é tornar estes (pré)conceitos em meios de conhecimento do “outro” – coisa, assunto ou pessoa – ou em ultima instancia não interferir e meramente respeitar e reconhecer a existência desse “outro”…
Reconheço no meu discurso alguma inclareza e falta de objectividade ou até incorrecções estruturais…
Mas não sejamos (pré)conceituosos – ser-nos-á possível??!! – afinal a diferença e diversidade são salutares… E permitem-nos abrir novas gavetas (que é tão bom!) =)
Desejos de uma serena noite… e não “branca”!
"O Portugal de Georges Dussaud, esse país que parece tão próximo e tão longe, é um dicionário de sensações de comprazimento e memória; um documento quase secreto de muita saudade nossa. Usando um contraste quase violento do claro-escuro, fazendo com que as cinzas da luz percorram, aparentemente soltas, o papel, como resíduos de carvão e mantendo no modo de olhar o mundo, um humanismo indefectível, Georges Dussaud inventou para nós a gentileza de ser e de existir que nos agrada. Talvez que o que faz destas imagens a sedução do lugar e das pessoas, seja precisamente essa aparente contradição da dureza da luz e sombra e do emaciamento dos sentimentos. Há aqui aquele olhar sóbrio de Miguel Torga, que sentimos nosso e alheio, íntimo, mas duro e intransigente- com o sol, a claridade, os rostos, os gestos; daquela intimidade que se ganha, sabendo de si e dos outros. E, naturalmente, a magia dos enquadramentos, o acabado da composição, onde não cabia nenhum excesso mais. Georges Dussaud ainda acredita no homem e nas suas andanças, nas suas lides do quotidiano, interrompe-se na beleza da paisagem e na justeza do olhar. E este é, pois, o país percorrido há 25 anos, imobilizado em imagens a que recusamos a análise e esquecemos a cor que tudo cobre. Não é com nostalgia que o olhamos, mas é com saudade que lhe damos o nome. A saudade é tão portuguesa como estas imagens quase telúricas nos parecem, faz do pretérito um futuro a haver, é, sempre, um salto para o desconhecido, para o mistério. E é isso que aqui vemos, essa pulsão, esse fluir, esse exame.
Foi apenas no passado mês de Setembro que visitei pela 1ª vez alguns dos núcleos com Gravuras Paleolítico Superior (cerca de 25000 até 10000 anos a.C.) de Vila Nova de Foz Côa, e devo dizer que superou todas as minhas expectativas... o traço é por norma lindíssimo e de uma leveza e subtileza indescritíveis.